Stealthing (do inglês “furtar”), é uma forma de abuso sexual, que soa tão enganadora e perigosa como na realidade é. Se não estiver familiarizado com o termo, stealthing acontece quando um indivíduo, durante um acto sexual consensual, onde concordou usar um preservativo, o remove sem consentimento da outra pessoa, imediatamente antes ou durante a relação sexual.
Numa perspetiva física, esta ação incorre no risco de gravidez indesejada para uma mulher e, para ambos os sexos, na transmissibilidade de ISTs (infeções sexualmente transmissíveis). Psicologicamente, o stealthing ignora o acordo sexual estipulado, levando à quebra de confiança e viola o consentimento da vítima, originando angústia psicológica, na preocupação do “e se” que a vítima sofre até que essas consequências negativas sejam definitivamente descartadas (assumindo que não aconteçam). Enquanto a desculpa mais frequentemente invocada para esta ação parece ser a vontade do envolvimento sexual com maior prazer, o verdadeiro desejo do perpetrador é o prazer psicológico criado pela afirmação de poder, aliado à quebra de limites, que cria excitação ao exercer o seu domínio sobre a autonomia da outra pessoa.
E como pode o stealthing afetar a saúde mental? O impacto psicológico varia de uma pessoa para a outra, uma vez que os estudos efetuados neste campo mostram que se uma vítima não tem consciência de que o stealthing é uma forma de violência sexual, tende a ser menos afetada do que outra mais instruída sobre o que é consentimento. Mas alguém com conhecimentos básicos sobre consentimento pode também culpar-se a si própria e desenvolver problemas de confiança com os próximos parceiros. Independentemente, depressão, ansiedade e trauma são comuns nas vítimas, quer saibam ou não que o stealthing é um abuso, dado saberem que é algo incorreto e imoral. A maioria de nós possui valores sobre o que é certo e errado e não há nada de correto ou aceitável sobre relações sexuais sem consentimento. Como forma de abuso, o stealthing pode ter os mesmos efeitos que outras formas de abuso sexual, onde as vítimas podem entrar em espirais de culpa e vergonha, ao ponto de a vida quotidiana ser afetada, interferindo em campos fundamentais ao bem-estar, como a autoestima e valorização pessoal. Consequentemente, ao não possuir ferramentas quanto a como lidar ou gerir a situação, facilmente a vítima passa a ser controlada pela ansiedade e dificuldades como traumas ou a falta de confiança nos outros podem surgir. Numa outra perspetiva, que pode vir de forma conjunta, sentimentos depressivos podem começar a instalar-se e a vítima sentir repulsa por si própria e recorrer ao isolamento.
Atualmente, na componente legal, há pouco consenso sobre como deve ser definida esta prática, uma vez que surgem argumentos quanto a não se tratar de um crime contra o consentimento, mas sim de uma violação do consentimento informado, causando danos, mas não na mesma escala que a violação. Nos Países Baixos, já se considera o stealthing ilegal, assim como na Califórnia, o primeiro estado dos E.U.A. a tornar a prática punível.
Se já foi vítima de stealthing, saiba que o perpetrador está moralmente comprometido e que o que aconteceu não é culpa sua. Procure imediatamente cuidados médicos e, se sentir que necessita, consulte um psicólogo ou converse com família e amigos, de modo a lidar e gerir o potencial trauma psicológico deste abuso.